ARTIGOS
Em tecnologia, não tem almoço grátis
Por Rudinei Santos Carapinheiro*
19/07/2017

A falha nos sistemas de tecnologia da British Airways que  levou ao cancelamento de mais de 1.000 voos, afetando 75 mil passageiros poderá custar mais de 100 milhões de libras (418 milhões de reais) à companhia aérea. Segundo o CEO da companhia, em entrevista publicada no jornal The Guardian, o problema aconteceu devido a uma queda de energia no datacenter da empresa.

Mas a causa exata ainda está sendo investigada e não deixa de ser intrigante como pode ter ocorrido a queda de dois datacenters ao mesmo tempo, Boadicea House and Comet House, ambos localizados perto do aeroporto de Heathrow, sendo que em geral eles oferecem redundância – aprendizado adquirido com a queda das torres gêmeas em Nova York em 11 de setembro de 2001.

Problemas como este não acarretam somente em prejuízos materiais, pois além de arcar com o reembolso das viagens, alojamento, refeições e custos dos negócios que ficaram por realizar, existe um desgaste emocional para passageiros e funcionários e consequentemente a queda da reputação  – nenhum cliente espera que uma companhia deste porte enfrente problemas desta ordem.

Embora ainda não tenha divulgado nenhum diagnóstico da situação, a instabilidade das redes pode ter sido causada por produtos de baixa qualidade, provavelmente adquiridos sem o crivo de órgãos reguladores. Como a máxima do mercado é fazer mais com menos, não é surpresa que as corporações optem em comprar produtos de origem duvidosa por preços atraentes.

Acontece que estes produtos nem sempre funcionam como prometem. E nem sempre oferecem suporte quando o cliente precisa. E a garantia só funciona no papel. Na prática, o cliente pensa que fez um bom negócio e sai satisfeito depois de assinar um contrato com valor que representa uma economia tão relevante. Na primeira dificuldade, o usuário percebe porque pagou barato.

No caso do mercado de telecomunicações, as redes de fibra óptica necessitam de transceptores ópticos para funcionar. O avanço do uso da internet no país, do comércio eletrônico, da computação em nuvem e da digitalização das empresas gera mais demanda por servidores, e consequentemente os datacenters. O mercado latino-americano de datacenters movimentou US$ 2,87 bilhões no ano passado. Deste total, o Brasil foi responsável por 47,6%, quase a metade do montante da região, segundo estudo da Frost & Sullivan.

De acordo com o último relatório sobre velocidade de conexão da empresa de internet americana Akamai, no quarto trimestre de 2016 a média de velocidade no Brasil aumentou mais que a média global. O aumento no país foi da ordem de 55%, enquanto no geral foi de apenas 26%. Apesar do aumento, a média da conexão no Brasil, que é de 6,4 Mbps, continua abaixo da média mundial, que é de 7 Mbps. Por isso, a qualidade e a capacidade de transmissão precisam ser garantidas para que o país alcance o patamar de qualidade dos mercados maduros.

Apesar do cenário de expansão, os transceptores ópticos ainda não são homologados nem certificados pela Anatel, agência reguladora que tem como uma das funções fiscalização de produtos, aumentar a confiança na certificação e garantir a proteção, a integridade das redes e os direitos do consumidor. Como não há este controle, os datacenters e provedores de internet correm riscos na aquisição destes produtos.

A importância da certificação na qualidade dos produtos ofertados ao público, e que outros países utilizam para a proteção de sua indústria de telecomunicações é primordial para o bom funcionamento do mercado e um estímulo à indústria nacional. Trata-se de um assunto de grande interesse dos fabricantes, ao comércio interno e ao comércio exterior, bem como a todos os envolvidos, ou seja, todos os usuários de internet.

*Rudinei Santos Carapinheiro é diretor para desenvolvimento de negócios da Skylane Optics

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