Publicada em: 05/12/2014 às 10:50
Artigos


Racionamento na internet
Por Eduardo Grizendi

É fato real e não virtual: os endereços IP – identificação necessária a todo computador ou dispositivo para se conectar à internet –, infelizmente, estão acabando. O cenário é similar ao que aconteceu com os CEPs no Brasil, há alguns anos, quando tivemos que mudar de cinco para oito dígitos e, recentemente, ao que ocorre com os números de telefones celulares, que ganharam um dígito a mais, primeiro em São Paulo e agora nas demais cidades do país.
 
Mas essa é uma mudança tecnológica previsível e mais que remediável, é solucionável. O IP que está acabando é um endereço de 32 bits, do protocolo IP (Internet Protocol) da internet versão 4, por isso a abreviatura IPv4. Como o endereço IP no IPv4 tem 32 bits, ele permite que a internet tenha 4 milhões de computadores ou dispositivos endereçáveis. O número parece grande, mas, tem em vista que, no início da internet, a distribuição foi em blocos, de maneira ineficiente, boa parte desses se perdeu e, devido ao crescente aumento na quantidade de computadores, celulares e outros dispositivos conectados à rede, esses endereços estão se acabando. Já não estão mais disponíveis em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.

Controlado por uma instituição chamada IANA (Internet Assigned Numbers Authority), o “estoque” central de endereços IPv4 já se esgotou. No Brasil, desde junho deste ano, os endereços IPv4 entraram em “terminação gradual”, como definiu o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), que distribui no país os endereços IP que recebe do Lacnic, entidade que, por sua vez, distribui para América Latina e Caribe. Trata-se do “fim” dos recursos da versão 4 de endereçamento IP, o que significa o início de um racionamento severo.
 
O efeito prático disso, segundo o NIC.br, é que, a partir de agora, as organizações no Brasil poderão receber, no máximo, 1.024 endereços IP (equivalente a um prefixo /22) a cada seis meses, mesmo que justifiquem a necessidade de blocos maiores. Ainda segundo o NIC.br, para esse processo de “terminação gradual” foi reservado o equivalente a dois milhões de endereços IPv4, por meio de uma política proposta e aprovada pela própria comunidade internet. Acabado esse estoque, há, ainda, dois milhões de endereços IPv4 que serão distribuídos somente para novos solicitantes, limitados a uma única alocação por solicitante de, no máximo, 1.024 endereços.

Já antevendo esse cenário, o IETF (Internet Engineering Task Force) publicou, em 1998, a RFC (Request for Comments) 2460 do IPv6, a versão 6 do Protocolo IP, que usa 128 bits para endereçamento, o que representa cerca de 79 octilhões de vezes mais endereços que os disponíveis atualmente em IPv4. Com essa enormidade de novos “CEPs virtuais”, a previsão é que todo tipo de coisa, como eletrodomésticos, acessórios, roupas e seres vivos, possam se conectar à internet, levando-nos a um novo mundo da Internet das Coisas (Internet of Things), com tudo conectado e interagindo entre si.
 
Em 2012, o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) publicou uma resolução que recomenda "que todas as redes conectadas à internet no Brasil considerem, com a urgência necessária, a implantação do IPv6". O documento cita que esse movimento de adoção do IPv6 deve ser urgente, dada a situação de esgotamento dos blocos IPv4.

O caminho é instalar o IPv6 nos computadores e dispositivos conectados à internet, que conviverão, durante um período de transição, com o IPv4, inicialmente interconectando ilhas de endereços de IPv6 em uma internet majoritariamente IPv4. Depois de algum tempo, ocorrerá o inverso: ilhas de endereços de IPv4 em uma Internet majoritariamente IPv6. Existem técnicas para esta transição, que permitem a interoperabilidade dos computadores e dispositivos IPv6 e IPv4. A implementação dessa prática não tem custo muito alto, pois não demanda a troca de todos os equipamentos - elementos de rede e computadores e dispositivos conectados. Poderá ser necessária a troca de equipamentos de rede, mas, principalmente, de programas de rede. No entanto, grande parte desses programas é de código aberto, com licença livre para utilização. E muitos dos equipamentos atuais já possuem as duas implementações.
 
Há sim de se empreender um esforço de engenharia de rede para, uma vez selecionada a técnica de transição, implantá-la e colocá-la operacional em uma sub-rede, formando ilhas de IPv6 e, gradativamente, expandindo os elementos de rede, computados e dispositivos.
 
Segundo dados do NIC.br, 68% das organizações no Brasil que fazem parte da internet como sistemas autônomos já se conscientizaram e alocaram blocos IPv6. No entanto, a utilização do IPv6 é baixa no mundo inteiro. O Google vê 4,5% de seus usuários utilizando IPv6 no mundo. No entanto, no Brasil, o percentual é de menos de 1%. O Peru é o país da América Latina que mais está utilizando o IPv6, segundo a empresa, com um percentual de 9,3% de seus usuários.

A Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) tem apoiado frequentemente as ações do NIC.br, de estímulo à adoção do IPv6 no país. Ao mesmo tempo, nosso braço de capacitação, a Escola Superior de Redes (ESR), mantém curso para os administradores de redes LAN e WAN na implantação de suporte ao protocolo IPv6 nas redes de suas organizações. Recentemente, a ESR anunciou um novo curso, desenvolvido em parceria com o NIC.Br, com foco na transição e na configuração de serviços em IPv6. Além disso, procuramos sensibilizar as instituições usuárias sobre a importância de adotarem o IPv6, preparando-se para essa transição do IPv4 para o IPv6.

No Brasil, o treinamento de mão de obra para operar o IPv6 está sendo feito por meio de inúmeros cursos de capacitação disponíveis no mercado, sobretudo sobre as técnicas para transição do IPv4 para o IPv6. Em especial, o NIC.br desenvolveu a iniciativa Universidade IPv6, com o objetivo de auxiliar as universidades a adotarem IPv6 em suas redes e os professores e os coordenadores de cursos a inserirem IPv6 nas aulas e grades curriculares, tornando o ensino e uso do IPv6 tão difundido quanto o do IPv4.

*Eduardo Grizendi é diretor de Engenharia e Operações da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) e professor do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel)


Powered by Publique!