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Telemedicina é nicho a ser explorado pelas empresas de internet
Por: Roberta Prescott - 15/04/2020

ATUALIZADA* - A Associação Brasileira de Internet realizou nesta terça-feira, 14/04, um webinar um dos maiores especialistas em tecnologia e saúde do Brasil para mostrar aos associados as oportunidades que surgem para a prestação de serviços por conta do maior uso da telemedicina, em função da pandemia de Covid-19. O convidado da Abranet foi o PHD e biomédico Renato Sabbatini. 

O especialista falou aos associados sobre as modalidades existentes de telemedicina, da caracterização da demanda sobre a rede e serviços de Internet, da regulamentação do CFM com relação a guarda, manuseio, transmissão, confidencialidade, privacidade, além de formas de abordagens comerciais. "O alastramento do novo coronavírus acelerou em todo o mundo a adoção de tecnologia a distância em educação e saúde, setores que estavam mais atrasados em relação a outras áreas", reportou Sabbatini.

Com a liberação do atendimento de pacientes a distância, por meio de recursos tecnológicos, durante a pandemia de Covid-19 no Brasil, as empresas de internet depararam-se com uma nova oportunidade de prestar serviços de valor adicionado ao enorme mercado que reúne profissionais da área da saúde, clínicas, laboratórios, hospitais, entre outros. É um vasto mercado, uma vez que o Brasil conta com pouco mais de 450 mil médicos, com concentração na região Sudeste

Em meados de março, o Conselho Federal de Medicina (CFM) autorizou em caráter excepcional e enquanto durar a pandemia de Covid-19 o uso da telemedicina. No fim do mesmo mês, o Senado aprovou o projeto de lei PL 696/20 que libera o uso da telemedicina durante a pandemia de coronavírus no Brasil. O objetivo foi desafogar hospitais e centros de saúde com o atendimento de pacientes a distância, por meio de recursos tecnológicos, como as videoconferências.

Sancionada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, a Lei nº 13.989/2020 foi publicada no Diário Oficial da União e entrou em vigor em 16/4, autorizando a prática da telemedicina para todas as áreas da saúde, enquanto durar a crise ocasionada pela epidemia do novo coronavírus. No entanto, dois artigos do texto original aprovado pelo Congresso Nacional foram vetados. Um previa que, após o período da pandemia, o Conselho Federal de Medicina (CFM) regulamentaria a telemedicina. Em mensagem ao Legislativo, Bolsonaro justifica que a atividade deve ser regulada em lei, ou seja, deve passar novamente pela aprovação dos parlamentares.

O segundo artigo vetado diz respeito à dispensa da apresentação de receita médica em meio físico e validade das receitas médicas apresentadas em suporte digital, com assinatura eletrônica ou digitalizada do profissional que realizou a prescrição.

Teleconsulta

Grande dependente da internet, a teleconsulta, explicou o especialista, está sendo usada para melhorar a logística de atenção e monitoração das pessoas, uma vez que é possível atender os pacientes por meios eletrônicos. Com a liberação, os profissionais da saúde passaram a poder fazer teletriagem (identificar riscos, motivos e critérios para triar o paciente), telemonitoração (acompanhamento contínuo ou periódico de condições de saúde, parâmetros etc.) e teleaconselhamento (orientação, educação e engajamento do paciente sem ser um atendimento assistencial).

Do ponto de vista de infraestrutura, a informatização e a telemedicina vão colocar demanda adicional sobre a rede, sendo a segurança da informação e a proteção de dados os requisitos mais importantes para as prestadoras de serviços se atentarem, apontou Sabbatini. Obter certificações, trabalhar em cima de padrões de informação em saúde para atender às necessidades de interoperabilidade dos registros eletrônicos de saúde (RES), além de interoperabilidade para que diferentes sistemas se comuniquem entre si e ter a informação centrada no paciente são conceitos fundamentais.

A demanda por capacidade de tráfego também deve responder às necessidades de os prontuários de várias clínicas serem integrados. "Precisa de muita comunicação de dados; é um dos setores que mais demandam banda larga porque transmitem arquivos de 2 giga, 5 giga como imagens de radiografia", explicou Sabbatini. Um exemplo da interconexão é que hoje se pode acompanhar a epidemia. "Conseguimos acompanhar, em tempo real, as quase três mil mutações do vírus detectadas até agora e nada disto aconteceria se não fosse a internet", pontuou, durante a apresentação.  

O que mais demanda banda, explicou, são os serviços de diagnóstico por imagem. "Com RIS/PACS, o processo tradicional de realização do exame passa a ser inteiramente digital. Então, imagem que conexão esta clínica de imagem deve ter para fazer a transmissão de arquivos extremamente pesados e criptografados; e elas também querem armazenar na nuvem", disse. Na telemedicina e telessaúde, usar sistemas de segurança e criptografia, como VPNs, é obrigatório para prezar pela segurança das informações trocadas, assim como estar em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Outro ponto de atenção é na escolha dos sistemas de áudio e vídeo para a realização dos atendimentos na teleconsulta, que deve ser em tempo real e ser segura, de alta qualidade e disponibilidade.

“Além de mecanismos para a troca de informação sigilosa, hoje é impossível você implantar um sistema, se não tiver infraestrutura deste tipo para o uso do certificado digital. Isto porque os médicos também passam a poder emitir prescrição e, dentro de um mecanismo todo integrado, a receita digital é registrada no Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP) e enviada à farmácia, que avisa o médico quando o paciente retirou o medicamento”. No entanto, ao ser sancionada, a Lei nº 13.989/2020 teve vetado o artigo que diz respeito à dispensa da apresentação de receita médica em meio físico e validade das receitas médicas apresentadas em suporte digital, com assinatura eletrônica ou digitalizada do profissional que realizou a prescrição.

Oportunidades

Há diversas oportunidades de oferta de serviços para os provedores de internet que vão desde a oferta de conectividade às redes privadas de área ampla e redes públicas (internet) às instituições, com serviços de última milha, serviços compartilhados ou dedicados. Uma das principais preocupações, adverte, Sabbatini, é a garantia de qualidade de serviço, com SLAs de alta disponibilidade. 

Complementarmente, as empresas podem ofertar serviços de armazenamento em nuvem, barramento de interoperabilidade, monitoramento de rede, segurança da informação e operações especializadas como videoconferências e streaming sob demanda. “Um hospital não tolera menos de 99% de SLA, porque não pode ficar parado nem por uma hora. O SLA da área médica é absurdo, não é como e-commerce ou banco, a tolerabilidade e a velocidade de recuperação são as mais altas de qualquer área industrial", destacou o especialista.

Entre as recomendações de Sabbatini para aqueles que pensam em entrar nessa área estão a obtenção de certificações como as normas ISO 27.001 e 27.799 e o recrutamento de mão de obra que conheça bem o setor e de pessoas para suporte técnico especializado. "Para abordar o mercado, tem de conhecer bem, levantar os clientes na área e reforçar laços. É possível levantar dados de quem está na região consultando, por exemplo, na data SUS. Fazer parceria com entidades, associações e para entender as necessidades e requisitos do setor também é importante", enumerou. Ele também aponta como favorável montar uma vertical na empresa com vendedores especializados ou com bom conhecimento das aplicações em saúde e discutir com os atores as questões de priorização.  

Ter uma abordagem consultiva é recomendado, uma vez que, segundo Sabbatini, é comum médico achar que precisa de internet mínima e depois se queixar da velocidade e colocar e a culpa no provedor de internet. Os ISPs também podem fazer parcerias com empresas que tenham plataformas de telemedicina para oferecer a solução integrada. A SBIS tem uma lista de sistemas certificados.

Sabbatini ressaltou que ter o conhecimento deste mercado é fundamental e sinalizou que ainda estamos no início da tendência de adoção de informática em saúde. "É um mercado gigantesco, mas temos de fazer o desenvolvimento dele, porque eles [os médicos] ainda não entendem a banda que precisam, o que podem usar de plataforma para fazer atendimento etc. Existem poucas pessoas que estão ensinando isso aos médicos; muitos hoje não estão aptos a usar as ferramentas de teleconsulta, mas em uma hora aprendem."

Saúde digital

A saúde digital e todas as tecnologias envolvidas neste processo são, segundo Sabbatini, aliadas para que a área da saúde atinja suas metas de aumentar a qualidade da atenção e da experiência, expandir a cobertura e diminuir os custos. "Cerca de 40% da área de saúde estão centradas na captura e no processamento de informação", disse. A informatização da saúde substitui o que está em papel para eletrônicos, permitindo a integração global de informações em saúde e conectando os protagonistas (profissionais, hospitais, clínicas, laboratórios, equipamentos de imagem etc.)

A informática em saúde, com aplicações das tecnologias de informação e de telecomunicações na medicina e na saúde; a telemedicina, com o uso das telecomunicações para serviços de saúde a pacientes a distância, e, por fim, e-saúde, consistindo na informatização integral de todos os aspectos dos cuidados de saúde em uma comunidade.

 Em telemedicina, as modalidades se dividem, atualmente, em diagnóstica (entre provedores de atenção à saúde); assistencial, sendo a teleconsultoria entre profissionais de saúde, a teleconsulta entre profissionais de saúde e pacientes e a telemonitoração entre pacientes e máquinas; e intervencionista, com a teleterapêutica e telecirurgia. Contudo, para Renato Sabbatini, daqui a algum tempo, não haverá mais necessidade, por não fazer mais sentido, o uso de 'tele' no termo telemedicina.

*Matéria atualizada em 16/04 para alterar as informações referentes às receitas virtuais, após Bolsonaro ter sancionado a lei que autoriza telemedicina em todas as áreas de saúde

A Abranet disponibiliza para a íntegra da apresentação do Dr. Renato Sabbatini.

Veja o complemento do webinar com as respostas às dúvidas remanescentes.

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