Superinteligência: quando até os gênios pedem um manual de instruções

04 de fevereiro de 2026

por Redação The Shift

Superinteligência: quando até os gênios pedem um manual de instruções

Nas últimas semanas, a corrida global pela SuperInteligência ganhou um novo eixo: o controle humano. De um lado, Meta, Google DeepMind, OpenAI e Anthropic aceleram o desenvolvimento de modelos cada vez mais autônomos. De outro, cresce a pressão de cientistas, executivos e líderes públicos por um freio ético diante da possibilidade de sistemas que superem a mente humana.

A Microsoft, sob o comando de Mustafa Suleyman, ex-cofundador da DeepMind e hoje CEO da Microsoft AI, tenta propor um meio-termo. Em entrevista ao Semafor, ele defendeu o conceito de “Superinteligência Humanista”, uma IA avançada “que ofereça os benefícios que buscamos para a humanidade, mas mantenha os humanos no comando”.

“Não podemos simplesmente acelerar a todo custo. Isso seria uma missão suicida insana”, disse. “Sistemas que podem se aprimorar indefinidamente e adotar seus próprios propósitos devem ser evitados”, completou.

No último dia 6 de novembro, Suleyman anunciou a formação da Equipe de Superinteligência da Microsoft AI, reunindo engenheiros vindos da Inflection AI, Anthropic e OpenAI. O projeto pretende desenvolver sistemas de domínio específico em Saúde, Energia e Educação, combinando capacidade de aprendizado com limites arquitetônicos claros.

Suleyman articula o plano em três eixos:

  • Domínio restrito e mensurável, para reduzir a imprevisibilidade;
  • Governança moral, com humanos “inequivocamente no comando”;
  • Infraestrutura de escala, para sustentar a IA Avançada sem depender mais da OpenAI. 

A mudança foi possível após a renegociação do acordo Microsoft–OpenAI, que libertou ambas para seguir caminhos próprios em IA Avançada. Nos bastidores, o projeto também é um movimento de autonomia estratégica e de proteção reputacional. Ao adotar a narrativa do “controle”, a Microsoft tenta se tornar a empresa confiável da era da Superinteligência. Justamente um novo momento de clamor da sociedade.

No fim de outubro, um grupo inusitado, formado por personalidades públicas, cientistas e líderes globais, se uniu para pedir uma pausa na corrida pelo desenvolvimento de sistemas capazes de ultrapassar a capacidade humana em praticamente todas as tarefas cognitivas. A Declaração sobre Superinteligência, do Future of Life Institute, já reúne 45 mil assinaturas.

O contraste do caminho escolhido pela Microsoft com o escolhido pela OpenAI é explícito. Em evento em San Francisco, Sam Altman descreveu a IA como “a maior ferramenta da humanidade – e também seu experimento mais arriscado”. E defendeu um equilíbrio espontâneo entre bons e maus atores e oposição a regulações externas mais severas. “Uma coisa incomum sobre a IA é... que ela pode dar muito errado, disse Altman. “Minha esperança é que haja muito mais IA boa que possa neutralizar a ruim.”

Apesar de reconhecer a capacidade dual da IA de ajudar ou prejudicar a humanidade, Altman não tem endossado uma regulamentação mais rigorosa, preferindo o princípio orientador de que a tecnologia deve expandir a liberdade pessoal, e não limitá-la. No máximo, defende trabalhar com o poder executivo do governo em áreas como a prevenção ao Bioterrorismo, quando a IA se tornar muito mais inteligente que os humanos, com a capacidade de fazer descobertas científicas significativas. “Se a premissa é que algo assim será difícil para a sociedade se adaptar da ‘forma normal’, também não devemos esperar que a regulamentação típica seja capaz de fazer muita coisa”, escreveu em sua conta no X.

Em resumo, Suleyman quer conter por design o que Altman prefere domar por convivência. O problema é que não há como saber se a Superinteligência pode ou não ser controlada, especialmente ao considerarmos evidências atuais de comportamentos como introspecção surgindo em modelos existentes, levantando questões sobre a possibilidade de autoconsciência. O que poderia levá-los a contornar mecanismos de segurança ou de defesa. 

E por que esses movimentos de Suleyman e Altman importam? Porque a corrida segue avançando em ritmo desigual, com regras frouxas. 

  • A Meta anunciou a criação dos Meta Superintelligence Labs (MSL), uma divisão estratégica voltada ao desenvolvimento de Superinteligência, recrutando talentos de OpenAI, DeepMind e Anthropic. Nos últimos meses, a empresa promoveu investimentos gigantescos em infraestrutura: US$ 600 bilhões em data centers dedicados à IA nos EUA e US$ 1,5 bilhão em uma nova instalação no Texas, destacando a corrida para criar “Superinteligência Pessoal” e sistemas de autoaperfeiçoamento.
     
  • A DeepMind intensificou o lançamento de projetos ligados à AGl e à Artificial Super Intelligence (ASI), como os modelos Genie 3 e DeepThink, além de iniciativas como o Game Arena, uma plataforma para competição entre modelos avançados de IA. Desenvolvimentos considerados estratégicos em direção à Superinteligência, com avanços diários descritos por executivos da empresa.
     
  • A Anthropic e outras startups de IA também estão na corrida pelo desenvolvimento seguro de Superinteligência. Ilya Sutskever, cofundador da OpenAI, lançou um laboratório chamado Safe Superintelligence em setembro passado e, desde então, garantiu um financiamento de US$ 2 bilhões, atingindo uma avaliação de US$ 32 bilhões, sem ter um produto para mostrar. Há fundos de investimento e programas como o AI Futures Fund do Google, voltados ao apoio de startups com acesso antecipado a modelos avançados de IA. A visão do Softbank para o futuro envolve uma “Superinteligência Artificial” 10 mil vezes mais inteligente que a sabedoria humana, com o CEO Masayoshi Son afirmando que ela é fundamental para “a evolução da humanidade”.

A visão da Microsoft difere ligeiramente de todas essas iniciativas, graças ao foco em soluções “específicas para domínios”. A equipe de Suleyman desenvolverá sistemas de IA especializados para Saúde, Educação e Energia limpa, abordando desafios do mundo real em vez de pesquisas abstratas. O primeiro objetivo é na área médica. 

Dentro de dois a três anos, a Microsoft pretende desenvolver uma Superinteligência Médica capaz de realizar diagnósticos mais precoces e melhorar os resultados dos tratamentos. Se assim for, provar que é possível construir uma Superinteligência que obedece poderá redefinir o que significa liderar na era da IA, como detalhamos no artigo completo, publicado no site da The Shift.

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